A Força da Intercooperação: Favoo e Sicoob Credisul transformam a educação e formam gerações no Cone Sul de Rondônia
Da sala de aula à comunidade indígena, a parceria entre Favoo e Sicoob Credisul mostra como a intercooperação transforma sonhos individuais em desenvolvimento coletivo e cria um legado que atravessa gerações.

A cerca de 70 quilômetros do centro urbano de Vilhena, uma estrada de terra corta a floresta que dá acesso ao Parque Indígena Aripuanã. É ali, às margens do histórico Rio Roosevelt, que fica a comunidade Sowaintê, onde vivem famílias da etnia Sabanê que ainda preservam tradições passadas de geração em geração. Foi nesse cenário que Iliandro Sabanê alimentou, durante anos, um sonho que parecia distante da realidade: cursar Direito.
A mensalidade de uma faculdade particular era alta demais. A universidade pública nunca ofereceu o curso como ele esperava e, aos poucos, aquele desejo foi ficando adormecido. A reviravolta aconteceu de forma inesperada, na tela de um celular. Uma publicação anunciava bolsas integrais para estudantes indígenas na Escola e Faculdade Favoo. Iliandro não deixou a oportunidade passar. No último dia do prazo, enviou a inscrição.
"Por um momento eu senti que aquilo era meu. Finalmente havia chegado a hora de viver aquilo que eu sempre sonhei."
Enquanto Iliandro atravessava os portões da Favoo pela primeira vez, João Henrique Araújo já conhecia cada um daqueles corredores. Aos 22 anos, ele pertence à primeira geração de estudantes que cresceu dentro da cooperativa. Entrou na instituição aos três anos de idade, passou pela Educação Infantil, Ensino Fundamental, Ensino Médio e hoje também cursa Direito.
Embora tenham percorrido caminhos completamente diferentes, os dois fazem parte da mesma história.
Quando a solução virou cooperativa
A história que hoje une João e Iliandro começou muito antes de ambos chegarem à faculdade. Em 2006, um grupo de 21 famílias decidiu transformar uma preocupação comum em um projeto coletivo. A maioria havia escolhido Rondônia para construir uma nova vida, mas carregava a mesma inquietação: como oferecer aos filhos uma educação de qualidade sem precisar enviá-los para estudar nos grandes centros do país?
A resposta não veio de uma escola pronta. Precisou ser construída.
"Nós optamos por morar em Rondônia,e queríamos que nossos filhos tivessem uma educação com a mesma qualidade daquelas crianças que estudavam nas capitais", relembra Carolina Navarro Torres, presidente da Escola e Faculdade Favoo e uma das fundadoras da cooperativa.
A busca levou o grupo até uma pequena escola que encerrava as atividades. O espaço foi arrendado, os alunos permaneceram e, pouco a pouco, nasceu um projeto educacional diferente de tudo o que existia na região.
Em vez de abrir uma escola privada convencional, aquelas famílias decidiram criar uma cooperativa e desde o primeiro dia, ficou estabelecido que nenhuma sobra financeira seria distribuída entre os cooperados. Todo o resultado retornaria para a própria escola, investido em infraestrutura, tecnologia, capacitação de professores e melhoria permanente da qualidade do ensino.
Mais do que um modelo de gestão, era uma forma de garantir que a educação permanecesse no centro de todas as decisões. Carolina acredita que a essência da Favoo continua resumida na mesma inquietação que motivou seus fundadores.
"O seu maior propósito mora na sua indignação. Se o seu filho tem uma educação pior do que a que você teve, você não está evoluindo na vida."
Quase vinte anos depois, aquele pequeno projeto tornou-se uma referência educacional. Hoje, a Favoo reúne mais de 1.100 estudantes e acompanha crianças desde os dois anos de idade até a pós-graduação, com cursos de MBA e formação continuada. Os cursos de Administração, Ciências Contábeis e Direito possuem nota máxima no Ministério da Educação, enquanto a escola lidera os resultados do Enem em Rondônia desde 2019.
Para João Henrique, que acompanhou esse crescimento desde a infância, a principal transformação aconteceu muito além da sala de aula.
"Os princípios do cooperativismo acabaram ficando enraizados na minha forma de viver. É algo que levo para as minhas relações pessoais e profissionais."
Os indicadores ajudam a explicar o sucesso da Favoo. Mas, para seus fundadores, o maior resultado nunca esteve apenas nos números. Estava nas pessoas que aquele projeto ainda seria capaz de alcançar.
Quando cooperativas decidiram cooperar
À medida que a Favoo consolidava sua proposta educacional, outra cooperativa também ampliava sua atuação em Rondônia.
Fundada em Vilhena e hoje reconhecida como a maior cooperativa de crédito da Região Norte, a Sicoob Credisul reúne mais de 140 mil cooperados, administra cerca de R$ 6,4 bilhões em ativos e está presente em Rondônia, Acre, Amazonas e Mato Grosso. Foi desse crescimento que surgiu a oportunidade de ampliar também o alcance da educação cooperativista.
Para Vilmar Saugo, um dos fundadores da Favoo e atual CEO da Sicoob Credisul, desenvolvimento econômico e desenvolvimento social nunca caminharam separados.
"Não existe desenvolvimento social sem desenvolvimento econômico. Não dá para construir hospitais, escolas ou transformar uma comunidade se a cooperativa não gerar resultados."
Foi dessa visão que nasceu a intercooperação entre as duas cooperativas.
Inicialmente, a aproximação acontecia entre cooperados que também eram pais de alunos da Favoo. Com o passar dos anos, surgiu uma nova percepção.
"Nós entendemos que havíamos construído uma escola de qualidade e que poderíamos estender essa oportunidade aos filhos dos cooperados. Foi nesse momento que surgiu a intercooperação. Foi um ganho para os dois lados."
Hoje, a Sicoob Credisul investe mais de R$1 milhão por ano em bolsas de estudo destinadas aos filhos de cooperados. Mais do que uma parceria institucional, a intercooperação criou um ciclo de desenvolvimento. A cooperativa de crédito amplia o acesso à educação. A escola forma profissionais. Muitos deles retornam para fortalecer o próprio cooperativismo e a economia da região.
A parceria ganhou um novo capítulo em 2021, quando a Sicoob Credisul adquiriu o prédio da antiga Faculdade AVEC e o destinou, em regime de comodato, à Favoo. A iniciativa permitiu consolidar um campus próprio e ampliar um projeto que hoje acompanha estudantes desde a Educação Infantil até a graduação.
Mas, para Vilmar, o maior investimento nunca foi o prédio, foi nas pessoas.
"Nós entendemos que, se não formarmos nossos sucessores com educação de qualidade, estaremos condenando o nosso próprio negócio. Hoje temos inúmeros colaboradores e estagiários que vieram da Favoo. Eles chegam entendendo o propósito da cooperativa e trabalham com muito mais paixão."
Formar pessoas para transformar comunidades
O modelo construído em Vilhena ultrapassou as fronteiras de Rondônia.
Hoje, a Favoo integra o Consórcio Internacional de Educação Empresarial Cooperativa (ICBEC), uma rede que reúne instituições dedicadas ao fortalecimento da educação cooperativista no mundo. A cooperativa participa da construção de referências curriculares para o ensino do cooperativismo em diferentes países.
Para Vilmar, esse reconhecimento internacional confirma que o modelo criado no interior da Amazônia responde a uma necessidade global.
"O mundo inteiro entende que ensinar educação financeira e cooperativismo desde o Maternal até o ensino superior é um caminho para formar pessoas melhores. É melhor cooperar do que competir."
Essa formação acontece diariamente dentro da própria cooperativa. Além do currículo tradicional, crianças, adolescentes e universitários participam de cooperativas estudantis criadas pela instituição, desenvolvendo competências de liderança, responsabilidade, participação democrática e trabalho coletivo. No Hubee, hub de inovação mantido pela Favoo em parceria com a Sicoob Credisul, os estudantes criam soluções tecnológicas voltadas aos desafios da própria comunidade, aproximando educação, inovação e desenvolvimento regional.
O desenvolvimento que permanece
Para Iliandro, entretanto, o cooperativismo nunca foi um conceito completamente novo.
Ao conhecer os princípios ensinados na Favoo, ele percebeu que aquela lógica já fazia parte da vida na aldeia.
"Na minha comunidade, quando alguém caça, divide. Quando alguém pesca, pensa em todas as famílias. O cooperativismo me fez entender que eu não posso olhar só para mim. Tenho que olhar para quem está ao meu redor."
Quando concluir a graduação em Direito, pretende voltar para a comunidade Sowaintê.
Quer desenvolver projetos, ampliar o acesso a direitos e contribuir para melhorar a vida do povo Sabanê.
Mas sabe que esse diploma nunca será apenas dele.
"Eu não entrei como Iliandro Sabanê. Eu entrei porque lideranças do meu povo assinaram minha carta de anuência. Eu também trago o meu povo junto comigo. Não é só uma realização pessoal. É uma conquista coletiva. Todo indígena que pensa em estudar quer ajudar o seu povo de alguma forma."
Quase vinte anos atrás, um grupo de pais decidiu criar uma cooperativa para oferecer aos próprios filhos a educação que acreditavam merecer. Naquele momento, dificilmente imaginavam que a decisão tomada em uma pequena escola de Vilhena atravessaria gerações, formaria milhares de estudantes, inspiraria instituições em diferentes países e chegaria até uma comunidade indígena no interior da Amazônia.
João Henrique cresceu dentro desse projeto. Iliandro Sabanê pretende levá-lo de volta para casa. Entre as duas histórias existe um elo invisível: a certeza de que a educação é capaz de romper distâncias, criar oportunidades e devolver às comunidades pessoas preparadas para transformá-las.
Talvez seja justamente aí que o cooperativismo revele sua maior força. O desenvolvimento não permanece porque novos prédios são construídos ou porque indicadores melhoram. Ele permanece porque transforma pessoas. E pessoas transformadas voltam para transformar famílias, comunidades e territórios inteiros.
É assim que um sonho coletivo iniciado por 21 famílias continua produzindo resultados quase duas décadas depois. Não apenas formando profissionais, mas formando cidadãos que entendem que crescer só faz sentido quando esse crescimento também alcança o outro. É assim que o cooperativismo deixa de ser apenas um modelo de organização para se tornar um legado.
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