Rondônia, 04 de fevereiro de 2026
Negócios

A tecnologia como aliada da educação e da gestão no Norte do país

imagem: IA

A região Norte do Brasil enfrenta um dos cenários mais desafiadores do país quando o assunto é infraestrutura tecnológica nas escolas. Os dados do Censo Escolar 2024 revelam que apenas 63,7% das instituições de ensino fundamental da região têm acesso à internet, número significativamente inferior à média nacional de 90,2%. Quando analisamos especificamente o acesso à internet banda larga, o quadro se torna ainda mais preocupante: apenas 66,9% das escolas do Norte dispõem desse recurso, enquanto o Sudeste registra 97,3% de cobertura.

Essa disparidade não é apenas numérica. Ela representa milhares de estudantes sem acesso adequado a recursos digitais essenciais para o desenvolvimento de competências fundamentais no século XXI. No ensino fundamental, somente 35,8% das escolas da região Norte possuem conexão à internet voltada para uso pedagógico, contra 60,6% da média nacional. No ensino médio, o percentual sobe para 48,5%, mas permanece abaixo dos índices das demais regiões brasileiras.

O abismo digital entre regiões e suas consequências reais

A desigualdade no acesso a computadores de mesa para uso dos alunos exemplifica bem o problema estrutural. Na região Norte, apenas 24,9% das escolas oferecem esse equipamento, enquanto a média nacional alcança 40,5%. Quando observamos outros recursos tecnológicos, como projetores multimídia presentes em 61,3% das escolas brasileiras, ou computadores portáteis disponíveis em 38,2% das instituições, percebemos que a região Norte fica consistentemente atrás dos indicadores nacionais.

Segundo dados divulgados pelo INEP em 2024, a região Norte registrou 66,6% de acesso à internet nas escolas públicas, o que representa um avanço em relação aos anos anteriores, mas ainda evidencia a necessidade urgente de investimentos. O Ministério das Comunicações destinou R$ 56,7 milhões em recursos do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust) para conectar 500 mil alunos de 1,4 mil escolas públicas nas regiões Norte e Nordeste, sendo 76% dessas instituições localizadas no Norte do país.

Região

Acesso à Internet (%)

Internet Banda Larga (%)

Computadores para Alunos (%)

Norte

63,7

66,9

24,9

Nordeste

91,3

83,2

36,8

Sudeste

97,9

97,3

48,2

Sul

99,0

76,0

52,1

Centro-Oeste

99,2

83,4

45,3

Fonte: Censo Escolar 2024 (INEP)

Esses números revelam que o desafio da região Norte vai além da simples conectividade. Trata-se de garantir infraestrutura completa, com equipamentos adequados e velocidade de conexão suficiente para uso pedagógico efetivo. Chama atenção o fato de que menos da metade das escolas do Norte estejam conectadas para uso pedagógico, o que limita drasticamente as possibilidades de implementação de metodologias inovadoras e recursos digitais em sala de aula.

Como a gestão escolar se transforma com ferramentas digitais

Para gestores educacionais, a tecnologia representa mais do que acesso à internet ou equipamentos. Ela possibilita otimização de processos administrativos, melhor comunicação com a comunidade escolar e decisões baseadas em dados concretos. Sistemas de gestão escolar integrados centralizam informações sobre matrículas, frequência, desempenho acadêmico e questões financeiras, permitindo aos diretores e coordenadores uma visão completa da instituição.

Em 2024, apenas 22,6% dos diretores no Brasil possuem curso de formação continuada, com no mínimo 80 horas, em gestão escolar, segundo dados do Censo Escolar. Esse dado evidencia uma lacuna crítica: gestores precisam dominar não apenas aspectos pedagógicos, mas também competências digitais para liderar a transformação tecnológica de suas escolas.

A plataforma Gestão Presente, lançada pelo Ministério da Educação em abril de 2025, representa um esforço para modernizar a gestão educacional nas redes públicas. A ferramenta integra dados públicos e facilita o planejamento pedagógico, oferecendo aos gestores recursos para acompanhar indicadores, monitorar frequência dos alunos e identificar demandas específicas de cada escola.

Ferramentas como planilhas digitais, sistemas de comunicação instantânea e plataformas de videoconferência tornaram-se essenciais no dia a dia da gestão escolar. Elas permitem aos gestores produzir relatórios, comunicar-se com professores e famílias, e até mesmo criar PDFs para sala de aula com materiais pedagógicos organizados de forma profissional. Essa capacidade de digitalizar e compartilhar documentos agiliza processos que tradicionalmente consumiam tempo valioso da equipe administrativa.

Qual o papel dos professores na integração tecnológica?

A formação docente emerge como fator determinante para o sucesso da integração tecnológica na educação. Dados da pesquisa TIC Educação 2024 mostram que apenas 54% dos docentes participaram de algum tipo de formação continuada voltada ao uso de tecnologias nos processos de ensino e aprendizagem. Isso significa que quase metade dos professores brasileiros não teve acesso recente a capacitações sobre o tema.

A resistência ao uso de tecnologias muitas vezes não decorre de falta de vontade, mas de insegurança e ausência de suporte adequado. Cerca de 30% dos professores entrevistados relatam que têm dúvidas sobre como aplicar recursos digitais de forma pedagógica, enquanto 36% relatam que o uso de tecnologias nas atividades com os alunos demanda muito tempo. Esses percentuais revelam que a questão não se resolve apenas com a disponibilização de equipamentos.

A formação continuada precisa ir além da instrumentalização técnica. Professores necessitam compreender como integrar tecnologias ao currículo de forma pedagogicamente significativa, desenvolvendo competências digitais que permitam explorar o potencial dessas ferramentas em diferentes contextos de aprendizagem. A pandemia de COVID-19 acelerou esse processo, mas também expôs fragilidades estruturais que ainda persistem.

Indicador de Formação Docente

Percentual

Professores com formação continuada em tecnologia (últimos meses)

54%

Professores com dúvidas sobre uso pedagógico de tecnologias

30%

Professores que consideram o uso de tecnologia demandante

36%

Professores que utilizam IA generativa na preparação de atividades

43%

Fonte: Pesquisa TIC Educação 2024

A análise desses dados indica que investimentos em capacitação docente são tão urgentes quanto melhorias na infraestrutura física das escolas. Um professor bem preparado pode maximizar o uso de recursos limitados, enquanto equipamentos sofisticados tendem a permanecer subutilizados quando falta formação adequada.

Experiências positivas que apontam caminhos possíveis

Algumas iniciativas na região Norte demonstram que mudanças significativas são possíveis quando há investimento coordenado. Manaus alcançou índice de conectividade de 78,2%, percentual superior à média nacional, beneficiando mais de 240 mil alunos. Das 505 escolas da rede municipal mapeadas pela Estratégia Nacional de Escolas Conectadas (Enec), 395 atendem aos parâmetros de conectividade adequada, com 79,4% possuindo velocidade de internet compatível com as demandas educacionais.

O sucesso de Manaus decorreu de programas como PDDE Inovação Educação Conectada, Fust e Aprender Conectado, que ampliaram o uso pedagógico das tecnologias digitais e levaram internet a comunidades de baixa renda. Esse caso evidencia que políticas públicas bem estruturadas, com recursos adequados e gestão eficiente, podem transformar realidades educacionais mesmo em contextos desafiadores.

A implementação de Centros de Tecnologias Educacionais (CTEs) coordenados pela Secretaria Municipal de Educação de Manaus, com cerca de 234 centros desde 2021, funcionou como espaço formal de aprendizagem equipado com aplicativos educacionais conectados à internet. Essa estratégia demonstra a importância de criar ecossistemas digitais completos, não apenas fornecer acesso isolado à conectividade.

Desafios que ainda precisam ser enfrentados com realismo

A Estratégia Nacional de Escolas Conectadas prevê investimentos de R$ 6,5 bilhões até 2026 para promover equidade no acesso às tecnologias nas escolas. No entanto, nem sempre a conexão reportada se traduz em acesso efetivo à internet e equipamentos pelos estudantes, pois muitas vezes esses recursos são destinados apenas ao uso administrativo da escola.

Dados do Sistema de Medição de Tráfego de Internet (Simet), atualizados em dezembro de 2024, mostram que 43% das escolas não têm monitoramento da qualidade da internet. Isso significa que mesmo instituições tecnicamente conectadas podem estar oferecendo experiências digitais precárias, com conexões lentas ou instáveis que inviabilizam o uso pedagógico efetivo.

Outro obstáculo crítico é a formação inadequada de gestores escolares. A ausência de capacitação específica em tecnologias educacionais limita a capacidade dessas lideranças de implementarem projetos inovadores e orientarem suas equipes. A gestão escolar digital exige competências que vão desde a aquisição de equipamentos até a definição de políticas de uso, passando pela articulação com a comunidade e avaliação de resultados.

A desigualdade também se manifesta entre zonas urbanas e rurais. Escolas localizadas em áreas remotas, comunidades ribeirinhas e indígenas enfrentam desafios adicionais de infraestrutura básica, como ausência de energia elétrica estável. Segundo o Anuário Brasileiro da Educação Básica 2024, 4,6 mil escolas brasileiras não têm acesso à energia pela rede pública ou por fontes renováveis, limitando drasticamente as possibilidades de ensino.

O que os dados sugerem para ações futuras

A análise dos indicadores disponíveis aponta para a necessidade de abordagens integradas que combinem infraestrutura, formação continuada e gestão eficiente. Não basta conectar escolas se os professores não souberem utilizar pedagogicamente os recursos disponíveis. Da mesma forma, investir apenas em capacitação docente sem garantir equipamentos adequados e conexão estável produz resultados limitados.

O segmento de edtech no Brasil contava com mais de 619 startups em março de 2024, segundo o think-tank Distrito, demonstrando a vitalidade do setor e o potencial de inovação. No entanto, as disparidades regionais no acesso à educação de qualidade persistem, levantando preocupações legítimas sobre equidade educacional.

O crescimento da Educação Profissional e Tecnológica oferece perspectivas promissoras. O eixo de Informação e Comunicação registrou avanço de 28% entre 2023 e 2024 na rede pública, refletindo o crescente interesse dos jovens por áreas ligadas à inovação e ao mercado digital. Esse movimento pode contribuir para formar uma nova geração de profissionais capacitados em tecnologias, inclusive na própria região Norte.

Caminhos entre o possível e o necessário

A tecnologia representa ferramenta poderosa para transformar a educação e a gestão escolar no Norte do Brasil, mas sua implementação efetiva depende de condições estruturais que ainda não estão plenamente disponíveis. Os dados apresentados revelam avanços pontuais e iniciativas bem-sucedidas, mas também evidenciam lacunas profundas que não serão superadas apenas com discursos sobre inovação.

É necessário reconhecer que os números oficiais sobre conectividade nem sempre refletem a realidade do uso pedagógico efetivo. Uma escola tecnicamente conectada, mas sem equipamentos suficientes, professores capacitados ou velocidade adequada de internet, não está verdadeiramente integrada ao mundo digital. A qualidade da conexão importa tanto quanto sua existência.

Os gestores escolares emergem como protagonistas fundamentais nesse processo. Eles precisam de formação específica em tecnologias educacionais, suporte técnico adequado e autonomia para implementar soluções adaptadas às realidades locais. A gestão digital não se resume a adotar sistemas prontos, mas a compreender profundamente as necessidades da comunidade escolar e mobilizar recursos para atendê-las.

Para os professores, a formação continuada deve ser prioridade permanente, não apenas resposta emergencial a crises. Capacitações pontuais e isoladas produzem resultados limitados. É preciso criar ecossistemas formativos que ofereçam suporte contínuo, espaços de experimentação segura e tempo adequado para apropriação gradual das ferramentas.

A região Norte enfrenta desafios únicos relacionados a sua vasta extensão territorial, presença de comunidades isoladas e limitações de infraestrutura básica. Soluções efetivas precisam considerar essas especificidades, combinando tecnologias adequadas a cada contexto (como conexões via satélite para áreas remotas) com estratégias pedagógicas criativas que maximizem recursos disponíveis.

Os investimentos previstos até 2026 representam oportunidade importante, mas sua efetividade dependerá da capacidade de execução, monitoramento rigoroso e disposição para ajustes baseados em evidências concretas. Não há atalhos: construir educação de qualidade com apoio tecnológico exige tempo, recursos consistentes e compromisso de longo prazo de toda a sociedade.

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