Desembargadora Ivanira participa de sua última sessão no TJ de Rondônia
Tudo como sempre. Habeas Corpus, agravos e sustentação oral. Na mesa ao lado, a taquígrafa registra o julgamento do último processo de uma carreira irretocável de mais de 32 anos dedicados à Justiça. A voz suave, embora firme, leu o voto, aguardou a decisão dos pares e cumpriu com elegância e altivez a missão de decidir sobre a vida das outras pessoas pela derradeira vez. Foi na manhã desta quinta-feira, 30 de junho de 2016, a última sessão de julgamento da 1ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado de Rondônia, da qual participou a desembargadora Ivanira Feitosa Borges.
Nada será como antes. As palavras carregadas de saudade foram ministradas pelo presidente da 1ª Câmara Criminal, desembargador Valter de Oliveira, que disse à desembargadora que seus votos não serão esquecidos, pela pitada de humanidade que Ivanira dedicava a cada decisão. Realizada e admirada na vida social, familiar e profissional. Daniel Ribeiro Lagos, desembargador membro da Câmara, também a homenageou e lembrou os tempos em que foi tabelião da então juíza Ivanira Borges, na comarca de Espigão do Oeste. Bem humorado, o conterrâneo Jackson Abílio, procurador de Justiça, fez breve e poético relato biográfico. “Ela conseguiu ser superior sem ser arrogante, e ser dura, sem perder a ternura. Foi destemida, sem perder a elevação e a urbanidade”, disse o Abílio.
Presença especial na sessão, o desembargador Marcos Alaor Diniz Grangeia, ocupou a tribuna para tecer algumas palavras à desembargadora. Alaor lembrou a passagem pitoresca da vida da magistrada, quando um homem, na iminência de ser preso, resolveu se entregar na casa da juíza Ivanira. “Sabe por quê?”, perguntou o desembargador – “Porque a desembargadora é pessoa em quem se pode confiar”, explicou. Destacou o pioneirismo como primeira juíza, primeira desembargadora da carreira da magistratura, e disse que a colega se aposenta com o senso da missão finda, do dever cumprido e da consciência tranquila. Ele disse que a desembargadora é uma pessoa incomparável. O desembargador Miguel Monico Neto e o juiz José Jorge Ribeiro da Luz também prestigiaram a sessão, assim como servidores, advogados e familiares.
A desembargadora explicou que a aposentadoria é uma decisão meditada e planejada. Apesar de ainda ter vigor para seguir no trabalho ao qual se dedica há tanto tempo, agora ela quer cuidar mais da família e do marido Borges, com quem está casada há 39 anos. Ivanira Feitosa Borges revelou os planos de escrever dois livros que registrem a trajetória longa, trilhada com o infindável desejo de fazer justiça. A desembargadora se despediu com a emoção de quem ama o que faz e aprendeu lições no cotidiano judiciário. “A cada chamado da vida, o coração deve estar pronto para despedidas e para novos começos. Sem lamúrias”, disse.
Essa foi a última sessão de Ivanira Feitosa Borges como magistrada da Justiça estadual. Essa paraibana que se criou e estudou no Maranhão, fez de Rondônia sua nova casa e entrou para a história desse novo estado como a primeira juíza de Direito. Como magistrada são 32 anos de serviço, mas ao todo são 49 anos de trabalho, de caminhada, como fala a desembargadora, esforço de todos os dias é um bálsamo para quem faz o que ama. Citando poema de Ferreira Gullar, a desembargadora disse que, “como dois e dois são quatro, hoje vou me despir definitivamente das vestes talares”.
A sessão 1.454, da 1ª Câmara Criminal, da qual a desembargadora fez parte por 15 anos, foi encerrada com aplausos e forte emoção, no plenário I do Tribunal de Justiça, em Porto Velho. No próximo dia 11 de julho, o Tribunal Pleno do TJRO faz sessão solene para julgar a aposentadoria de Ivanira Feitosa Borges.
“Como dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Embora o pão seja caro
E a liberdade pequena”
Ferreira Gullar
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