Vídeo: vereadora de Cacoal acusa diretor do Heuro de esconder enfermarias enquanto pacientes aguardavam vagas
Uma grave denúncia envolvendo a direção do Hospital de Emergência e Urgência Regional de Rondônia (Heuro), de Cacoal, acaba de ser revelada pela vereadora Amália Milani. De acordo com a parlamentar cacoalense, a unidade hospitalar bloqueava o acesso a diversas enfermarias por meio de um tapume, a fim de ocultar vagas no sistema de regulação do Estado.
A determinação teria partido do próprio diretor-geral do Heuro, Gabriel Antunes, primo do ex-prefeito de Cacoal, Adailton Fúria. Escondidas detrás do tapume, as enfermarias passaram por uma ampla reforma, mas eram usadas desde janeiro apenas como depósito de materiais, enquanto os corredores do hospital serviam como "depósitos de gente", segundo revelou Amália Milani, em vídeo publicado nas redes sociais na sexta-feira (24).
No início de março, o novo secretário de Estado da Saúde, neurologista Edilton Oliveira dos Santos, de Cacoal, e o novo diretor-geral do Heuro, Gabriel Antunes, tomaram posse após terem sido indicados pessoalmente ao governador Coronel Marcos Rocha pelo ex-prefeito Adailton Fúria. Na época, Fúria deixou seu cargo para se lançar pré-candidato ao Governo do Estado, com apoio político de Marcos Rocha.
Mas as duas autoridades indicadas pelo ex-prefeito para solucionar os gravíssimos problemas que envolvem o Heuro não apenas demonstraram completa apatia nesses quase três meses à frente da Saúde, como se tornaram alvos da denúncia ao Ministério Público de Cacoal, levada a público pela vereadora Amália Milani.
Amália Milani confirmou que, poucos dias após o médico Edilton Oliveira dos Santos tomar posse como secretário, protocolou um ofício denunciando o "estado caótico em que se encontrava o Heuro". A vereadora disse que sua atitude "foi um gesto de confiança, na esperança de que o renomado médico de Cacoal tomaria as devidas providências, mas depois de quase três meses de sua posse, percebi que nada foi feito e, mais ainda, que o quadro atual se tornou simplesmente estarrecedor".
A vereadora revelou ainda que, após sua denúncia, representantes do Ministério Público, acompanhados do secretário-adjunto de Estado da Saúde, estiveram no HEURO e conversaram com o diretor-geral, que assinou um termo se responsabilizando por retirar todos os pacientes dos corredores até o próximo dia sete de junho, e instalar os pacientes, alguns deles em estado crítico, nas enfermarias vazias.
Abandono
No início de maio, a vereadora gravou um vídeo denunciando que 56 pacientes em estado grave, muitos em estado crítico, estavam abandonados em leitos improvisados pelos corredores do hospital. "Não é de agora que venho cobrando das autoridades, do ex-secretário de Saúde, Coronel Jefferson, do governador Marcos Rocha, tenho inúmeras falas minhas, declaradas na tribuna da Câmara Municipal de Cacoal, denunciando o quadro caótico da Saúde do município", afirmou a vereadora.
"Também cobrei explicações do novo diretor do Heuro, Gabriel Antunes, que tomou posse em março, depois de passar por outros cargos de confiança na gestão do ex-prefeito Adailton Fúria, incluindo o de secretário-adjunto da Educação", contou a vereadora. "Perguntei a ele sobre aquele tapume com a inscrição "Bloqueado", onde vim a descobrir que, o motivo pelo qual foi colocado aquele tapume, deixaria qualquer autoridade pública escandalizada".
Gabriel Antunes teria informado à vereadora que a ala foi bloqueada "para que outros 34 municípios não ficassem mandando pacientes para atendimento no HEURO". Segundo a vereadora, Antunes "ainda teve o desplante de dizer que, se os corredores do hospital estivessem vazios, descobririam que o HEURO tem vagas e não iriam parar de mandar pacientes pra cá".
"É impressionante o descaso com que essa gente está tratando esses pacientes", rebateu a vereadora. "Os moradores de todos esses 34 municípios não vêm até o HEURO para passear, essas pessoas vêm para Cacoal porque esse é o único hospital de urgência e emergência do interior do Estado em condições de fazer esse atendimento", denunciou.
Descaso
Amália Milani entrou no Ministério Público de Cacoal com uma denúncia por conta do grave descaso com que estavam sendo tratados os pacientes do hospital. A vereadora publicou um vídeo no dia 8 de maio, mostrando dezenas de pacientes abandonados em macas improvisadas ao longo dos corredores do Heuro, incluindo pessoas que haviam acabado de passar por cirurgias delicadas e que estavam expostas a todo tipo de fatores infectantes.
"Vi que a administração do hospital não estava nem um pouco incomodada com a seriedade dessa situação, nem tampouco o secretário de Saúde. Somente os funcionários estavam preocupados, sofrendo junto com esses pacientes. Médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, atendentes, fazendo tudo que estava ao seu alcance, mas sem qualquer apoio da direção do hospital. Por isso, fiz um registro detalhado de cada paciente e decidi entrar com essa denúncia no MP", declarou Amália.
Inicialmente, a vereadora foi ao hospital para visitar um amigo que estava internado há vários dias e continuava sem um diagnóstico definitivo. "A esposa dele já estava desesperada e me pediu para ir até lá. Quando cheguei, fiquei em estado de choque. Este paciente estava num leito improvisado, e assim como ele, haviam outros 55 pacientes internados naquele corredor imenso, sem nenhum banheiro por perto, sem qualquer estrutura mínima de atendimento, até sem água", confirmou. "Não tinha nem sequer um lençol pra trocar no leito desses pacientes".
Ela conta que, em certo momento, teve que "improvisar um lençol como se fosse uma cortina, segurando com a mão, para cobrir um paciente que precisava que limpassem suas fezes". Disse ainda que, "quando o filho desse paciente terminou de limpar, eu pedi perdão pelo descaso ao qual seu pai estava sendo submetido".
A vereadora fez um registro detalhado de todos que estavam ali. "Havia um paciente que estava no pós-cirúrgico imediato após a retirada do apêndice, paciente que trocou a prótese ortopédica do quadril por causa de uma infecção ocorrida no centro cirúrgico, e que estava no meio daquele corredor, exposto a todo tipo de fatores infectantes". Ela confirmou que haviam pacientes há vários dias naquela situação, inclusive idosos com mais de 80 anos. "Tudo isso eu tratei de registrar para poder entrar com essa denúncia no Ministério Público".